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Reverberações e Reparações | Dori Nigro

22nd May 2026

Estes corpos, nesta cidade: território, performance e escrita crítica 
Como é que a performance e a escrita criativa/crítica podem tornar-se práticas que pertencem e ecoam a cidade e aqueles que nela vivem?  Esta conversa acolhe artistas e escritores com práticas artísticas socialmente ativas para refletir coletivamente sobre o papel da performance dentro de uma cidade. Partindo de contextos institucionais e festivais, a discussão questiona o que a performance pode oferecer à vida quotidiana e como ela pode abordar, interromper ou responder à cidade e às suas comunidades. A conversa junta artistas que trabalham de forma socialmente engajada e críticos interessados em escrita e práticas performativas que tenham uma dimensão social, propondo ir além das echo chambers do mundo da arte e da institucionalidade, e assumir responsabilidade por experiências vividas, pelo espaço público e pela vida cívica. 


Áudio da intervenção:


Obrigado por essa ponte e de novo a colaboração com performingborders, com quem eu e o Paulo já temos essa relação também de pensar os festivais, de olhar para o passado. Pensei aqui voltar a 1988, o ano que eu nasci e que chegava aqui em Portugal o Mário Calixto, pai da Wura Moraes. E a Wura também nasce no mesmo ano, temos aqui 88 em comum. 

Porque depois dessa provocação da conversa de hoje, de tentar pensar no presente e de como tem sido criar e recriar aqui na cidade do Porto sobretudo corpos diaspóricos, afrodiaspóricos, de certa forma olhar para esse passado também é pensar esse presente; é pensar o futuro não só da cidade mas também do festival, do próprio DDD.

O Mário Calixto esteve e pisou no palco do Teatro Municipal do Porto na temporada de 1990.

Então olhar para esse passado também é olhar para esse presente, sobretudo também a minha presença. Pensando nesses corpos que abriram o caminho para que eu esteja aqui hoje, não só eu mas tudo aquilo que de certa forma nessa relação também afrodiaspórica, e cosmologias iorubanas, que a gente vem trabalhando. Quando eu olho para o que eu tenho feito hoje, o Mário já fazia aqui nos anos 80-90, então nada é novo; ao mesmo tempo a gente está nessa reverberação, né, como a própria peça da Wura dizia. A convite da Wura, vim acompanhando esse projeto, Confluências, Reverberações desde a sua gênese e que culminou aqui no projeto primeiro da Wura, HENDA / XALA onde ela faz uma homenagem ao pai, e agora esse último Reverberações que a ideia era Wura dançar com Miltércio (Santos, seu tio), que acabou falecendo durante o projeto de cozedura desse espetáculo que estreou aqui no DDD.

E a convite da Wura eu tenho me debruçado sobre esse arquivo. Esse arquivo vem de muitos anos que a mãe da Wura, Ana de Moraes, vem salvaguardando já desde o falecimento do Mário Calixto. Então eu começo por pular alguns enxertos do texto Reverberações e reparações: um olhar de corpo inteiro, a partir do arquivo-vivo de Mário Calixto (1960-1997)

Para dançar um arquivo 

O arquivo: se quisermos saber o que isso terá significado, só o saberemos amanhã.
(Derrida, 2001).

Dançar um arquivo requer tempo. Há arquivos que escondem mais do que revelam e que, por sua natureza, exigem uma mediação cuidadosa e um gesto coreográfico corajoso, como quem abre um álbum familiar e, ao revelar-se, revela o mundo.

Este arquivo é um acervo familiar que, generosamente, abre-se ao mundo como uma oferenda, esmiuçada pela memória e pelo corpo de suas salvaguardiãs, Ana de Moraes e Wura Moraes, narradoras que descortinam detalhes profundos de uma vida vivida até a última gota.

O arquivo revela a trajetória na dança de Mário Calixto e também de Miltércio dos Santos (Mil), seu irmão, guardando não apenas um recorte de suas histórias na dança, mas também a presença da dança afro na diáspora portuguesa. Este arquivo revela igualmente as gestualidades dos processos artísticos, generosamente partilhados por Mário, desde a génese de suas criações ao cuidado com que coreografava as coisas do seu tempo.

São gestos inacabados de liberdade e de assunção da vida. Num arquivo em que dança e vida se misturam. Apenas uma escrita, sozinha, é incapaz de traduzir tanta história. Mergulhamos em esboços de sonhos, medos e esperança.

Para adentrar neste arquivo, é preciso abrir-se.

Um arquivo que parte do singular ao plural, anunciando um recorte da história da dança afro que é também portuguesa. Grande parte desse fazer foi constituído cá, em Portugal, mediado pela existência fugaz e intensa de Mário até a partida recente de Mil, em 2024.

É um rico espólio que seria uma mais-valia para as instituições culturais, como arquivo dos dançarinos, assim como de tantos outros corpos que coreografaram as suas vidas nesta terra, mas que ficaram à margem dela. 

Se hoje ser artista é lidar com o desafio de criar e, ao mesmo tempo, produzir, vender e fazer circular as obras, no tempo de Mário e Mil os tempos eram outros. Os projetos eram executados à mão, sem as facilidades e/ou dificuldades dos nossos tempos digitais, resgatando um fazer artesanal que exigia esperar o tempo que a carta, escrita à mão, chegasse ao destino final.

Neste arquivo deparamo-nos com trocas de cartas familiares misturadas a croquis de trabalhos e registros de dossiês, nos quais Mário anotava caprichosamente à mão as suas necessidades técnicas, pensando na logística das criações. Cada fazer é uma arquitetura planejada nos mínimos detalhes, que desvelava a forma como o artista pensava.

Tudo era minuciosamente registrado no papel: sugestões de luz, figurino, cenário e indicações da trilha sonora, num cruzamento poético entre as coisas da vida e a arte, que nem sempre é possível apartar. Os manuscritos do arquivo permitem-nos acompanhar o nascimento de cada obra até à sua execução final, revelando o cuidado de cada gesto.

Deparo-me, no arquivo, com uma série de fotografias, projetadas nas Reverberações, que deixaram marcas incrustadas nos corpos dos performers em argila. São rachaduras de um sudário cartografado, que traçam os caminhos abertos em terra estranha.

As fotografias funcionam como uma outra realidade, na qual os nossos delírios criam novas imagens. A primazia da fotografia é o testemunho em primeira pessoa: um atestado de que alguém não apenas esteve num determinado espaço-tempo, como também o modificou.

Para Roland Barthes (2006), a fotografia não rememora o passado. Então, as fotografias que vemos são, portanto, os futuros de Mário e Mil, aqui-e-agora. E, por utopia, tornam-se também o nosso futuro, no presente. 

A fotografia é uma peça da memória que procura ser encaixada num puzzle sempre em falta. A dificuldade que Mil teve em lembrar das coisas do passado ocorre porque ele se apercebe de que o seu tempo sempre foi uma coreografia não linear. Compreender essa circularidade apazigua a nossa falta de memória. É que a falha faz parte do processo.

Dançar como memória

A memória não é neutra. Os arquivos agem em função da memória. E aceitar abrir o arquivo é um gesto arriscado, ao mesmo tempo generoso, pois, a partir do momento em que o arquivo se torna oferenda, como cita Wura, ele deixa de ser apenas nosso.

A memória caduca. Somos moldados por aquilo que lembramos, mas também pelo que esquecemos. Ela é influenciada pelo que escolhemos, desejamos e projetamos. Paira sobre nós um medo de lembrar. E, nesse jogo de disputa que é a memória, ter acesso a este arquivo é uma restituição da própria memória, no sentido de que certas lembranças e corporalidades são filtradas dos arquivos.

Este gesto evidencia não apenas a força que este arquivo carrega ao contar histórias, mas também a possibilidade de que outras histórias sejam narradas. De algum modo, assumimos a função de narradores quando nos deparamos com as histórias de outras pessoas, abrindo e selecionando, ao mesmo tempo, dançando e coreografando as nossas próprias histórias.

Escolher, lembrar, arquivar, inscrever. Todas estas palavras exprimem um certo poder. Aquilo que consideramos relevante pode não ser relevante para outras pessoas. Depende sempre da posição a partir da qual observamos. E este arquivo convoca um olhar de corpo inteiro.

Por uma pedagogia da dança (afro) contemporânea

Mário chega primeiro a Portugal, em 1988, fazendo parte de uma geração que adentra no país alguns anos após o fim de um dos regimes ditatoriais mais longos da Europa, que cerceou a liberdade. Fixou-se em Máfrica, no concelho de Amarante, transformando-a em sua base afetiva e criativa, e transitou por diferentes cidades portuguesas, tanto como dançarino quanto como educador através da dança. Movimentou-se também pela França, Alemanha e Áustria, encontrando nesses países uma ressonância maior para a sua dança do que em Portugal.

Foi através da pedagogia da dança que Mário e Ana se conheceram. Ana foi uma das alunas de Mário. Participou da sua formação em dança afro-contemporânea, durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, no final dos anos 80, exatamente em 87. Desde então, tornaram-se companheiros de vida e de criação. Desta relação nasceram a Wura Moraes e o Mário Calisto. Após o falecimento precoce do Mário, Ana Moraes passou a ser a cuidadora de seu arquivo.

Mário desenvolveu a sua prática desde 1984 quando sai em Salvador e vai pro Rio de Janeiro, assumindo aqui essa linguagem própria, pensando na ideia da dança afro contemporânea e no desafio também da desfolclorização das manifestações e espiritualidades de matriz africana, e de repensar a dança afro com um modo de vida contemporâneo que transcende, mas que não nega, os rituais litúrgicos do candomblé e do culto aos orixás.

O que Mário propunha era que a dança afro-contemporânea fosse compreendida para além dos aspetos ritualísticos e sagrados historicamente atrelados a ela. Ele coreografou a dança afro recriando uma espécie de dança sincrética acolhendo os mitos fundadores das cosmogonias afro-brasileiras, e incluindo a sua bagagem própria, sem, no entanto, negligenciar a religiosidade.

É importante questionar o estereótipo que supõe que toda pessoa negra que dança afro tem, imediatamente, um pé fincado no terreiro. Mário acionava, através do seu corpo- arquivo, aprendizagens e tecnologias próprias e adquiridas ao longo da sua passagem na terra, mobilizadas a qualquer momento, livres de barreiras e/ou imposições. A fala de Ana, parceira e cúmplice que acompanhou Mário por muitos anos, melhor traduz a sua complexidade na dança de Mário.

E aí passo a citar a Ana de Moraes, ela diz: 

Mário Calixto transcende o corpo matéria ocidental, corpo mental, e, dança numa proposta dinâmica, metamórfica, uraniana, que comunica através da esfera do sentimento, da emoção, a sua realidade mais profunda num movimento de dentro para fora a partir de um centro eterno imutável. Não são apenas gestos, formas, é o pulsar consciente numa expressão livre e poderosa de um todo com uma dimensão cósmica milenar.

Ela não lembra mais ou menos quando escreveu isso acha que foi entre 1989 a 90.

Então pulo para o outro e último capítulo: 

Dançar como reparação ou a dança como reparação

Wura Moraes faz girar sobre este arquivo rizomático e elabora-o por meio da dança. Nesse fazer, movimenta o próprio arquivo a cada passo, convidando-nos a leituras diversas. Talvez seja nesta reverberação que o arquivo ganhe ainda mais força, quando cruzado por outros corpos, gestos e olhares, mas, acima de tudo, quando quem está diante dele se permite banhar-se dele.

Nesta aprendizagem em que me encontro, também me banhei deste arquivo e dos seus ensinamentos, pensando na força da dança como gesto reparador.

O projeto contínuo de práxis em dança, Confluências e Reverberações, é, acima de tudo, sobre reparações. Cito duas que me vêm à cabeça para o início de um debate que deve ser ainda mais alargado e de múltiplas raízes, tal como este arquivo.

A primeira reparação que Wura faz é trazer novamente o seu pai para o palco do Teatro Municipal do Porto (TMP), dessa vez com o nome, e com história.

Mário Calixto, que pisou pela primeira vez no palco do TMP em 1990 para dançar a cantata de Carl Orff, Carmina Burana, naquela que seria a terceira encenação da ópera em Portugal. No entanto, seu nome e imagem ficaram esquecidos dos arquivos quando as notícias circulavam naquela peça.

A segunda reparação é a de trazer também o seu tio, Mil, para a dança. Ele que retornou ao palco em 2019, depois de anos parado, em parceria com Akila, aka Puta da Silva, dança com Wura metafisicamente. Mil fez parte deste projeto desde a sua génese, como extensão da memória de seu irmão Mário, mas acabou encantando-se durante o processo de criação.

Tive o prazer de conhecer Mil, pessoalmente, em vida. A sua energia contagiou-me ao longo do nosso almoço naquela agradável tarde lisboeta. São acontecimentos que só ocorrem uma vez, numa existência efémera, e que, de alguma forma, marcam as nossas vidas.

Não recordo exatamente todos os temas que rondaram aquela mesa. Eram muitos: comida, cachaça, nordestinidades. No entanto, quando a mente é incapaz de lembrar, o corpo revela. Há coisas que a memória, sozinha, não consegue abarcar, por ser demasiadamente fugaz e condicionada.

Aquilo que não conseguimos traduzir em palavras, fica no nosso corpo. E a dança é uma forma de transbordar.

Então dancemos.


Dori Nigro é criador, performer, arte-educador e investigador, com passagem pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. Desde 2007, dedica-se a práticas artísticas de cruzamento disciplinar. Possui doutoramento, mestrado e especialização no campo da arte contemporânea, práticas artísticas e arte/educação. É licenciado em pedagogia e bacharel em comunicação social/fotografia. Vive e atua entre Portugal e Brasil, dinamizando atividades colaborativas com artistas e comunidades locais. Cuida, com Paulo Pinto, da LÁRoyé, casa/atelier de partilhas afetivas, criativas e ancestrais, desenvolvendo investigações e criações no âmbito da prática artística e da arte/educação. É membro da União Negra das Artes (UNA). 

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