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Crítica Pingue-Pongue | Cláudia Galhós, Pedro Vilela, Xavier de Sousa

18th February 2026

A Crítica Pingue-Pongue foi concebida durante o projeto Live Art Writers Network no âmbito do Festival Linha de Fuga 2025, com curadoria de performingborders. Para consultar reflexões e todas as comissões do projecto Live Art Writers Network x Linha de Fuga, consulte este LINK

A Crítica Pingue-Pongue trata-se de um guia prático sobre como criar respostas críticas coletivas e multidisciplinares à performance, pingue-pongue style! Esta metodologia é de livre acesso, e convidamos o(s) leitor(es) a usa-la nas suas próprias práticas e/ou laboratório ou workshops. Sómente pedimos que atribuam o devido crédito e que contem como correu.

  1. Enquadramento

Começamos com uma convicção: a crítica de arte convencional é uma forma de violência e exercício de poder de legitimação de artistas dentro de uma lógica de mercado, capitalista, hierárquica, tendencialmente exercida por homens brancos ocidentais cis, e que serve também para afirmar a sua autoridade e superioridade num sistema de valores que eles próprios criaram, garantindo assim o recurso para se legitimarem a si próprios.

Daí a Crítica Pingue-Pongue.

  1. Prática de Crítica Pingue-Pongue

Dá-se preferência (mas não é absolutamente imprescindível) o uso de equipamento desportivo (exemplo: bonés, bola amarela, também podem preferir usar calções…). O fundamental é o espírito: que seja um exercício de partilha, de troca de ideias, saberes ou questões, em que uma pessoa escreve (numa noção expandida de “escrita” e “texto”) e logo a seguir passa a outra pessoa e todes participam numa sequência mista entre aleatoriedade e decisão de tomar a vez. Não importa que seja a reflexão mais erudita, eloquente, nem sequer importa que seja isenta de erro ou gralha gramatical. O que se deseja é estar realmente em relação, presente, e expressar algo vinculado a um lugar de enunciação pessoal sobre ou suscitado pela obra de arte em análise. 

Foi esta Crítica de Pingue-Pongue que jogámos em Coimbra, no âmbito do festival Linha de Fuga. Na urgência de todos terem tempo para inscrever algo seu, na sua língua, da sua perspectiva, multiplicámos os computadores disponíveis, o que gerou escritas em simultâneo – incluem-se aqui a partilha de uma música, a filmagem de um gesto performativo… Nessa vertigem, ganhou voz e imagem um coro que canta à vez – em que todas as expressões se unem num mesmo lugar, mas cada uma com a sua tonalidade, expressão rítmica e energética, o seu media, e a sua convicção. 

Não havia um líder designado, nem uma voz que orientasse o rumo das reflexões. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: construir um texto coletivo a partir de perspectivas diversas, sem hierarquias, permitindo que cada pessoa influenciasse o caminho da narrativa com igual peso. 

Do mesmo modo que não temos de concordar com tudo o que cada pessoa disse, escreveu ou fez, também aceitamos os tropeços na escrita, as palavras tocadas de imprecisões ou a grafia aventureira, aceitamos as gralhas, ou mesmo erros, contrariando qualquer ideia de binarismo entre certo e errado ou de perfeição de geração por IA, porque a Crítica Pingue-Pongue é uma prática de respiração de que Somos Humanes Ainda Humanes. E se mais tempo houvesse, teria havido espaço para atirar a bola de volta uns aos outros e continuar a conversa…

A horizontalidade não apagou as diferenças — ao contrário, deu a elas um lugar legítimo no texto. O resultado final foi menos um texto acabado e mais um registro de um processo: múltiplo, plural, marcado por vozes que se entrelaçavam sem se sobrepor. Um exercício de convivência, onde cada participante sai como coautor de uma experiência verdadeiramente horizontal. 

  1. Crítica Ping Pong – Guia passo a passo

    1) Organizem o espaço a vossa preferência: uma mesa comprida com todos à volta, um círculo de cadeiras ou almofadas espalhadas pelo chão, etc. Tenham a disposição uma bola, leve, para o jogo.

    2) Em conjunto, escolham uma obra de arte que todos tenham experienciado ou na qual concordem em refletir.

    3) Escolham, em conjunto, a pessoa que vai iniciar.

    4) Todos se apresentam, um a um, ao seu próprio ritmo, com as suas próprias intenções e da sua própria forma e linguagem. A primeira pessoa, após a sua apresentação, passa a bola para a próxima pessoa, à sua escolha. Convidamos a usarem este momento também para darem algumas ideias ou reflexões preliminares sobre a obra de arte em jogo. Esta secção demora o tempo que for necessário. 

    5) Após todos se apresentarem, criem espaços coletivos de escrita/reflexão (por exemplo, uma página do Word criada numa Google Drive partilhado por vários computadores, uma folha grande de papel na parede para todos usarem, pedaços de papel aleatórios espalhados pela mesa, ou qualquer outra configuração, como preferirem) e dêem a todos 10 minutos para prepararem as suas críticas/reflexões, que podem ser criadas por escrito, cantando, faixa de áudio, vídeo, desenho, em forma de poema, etc. 

    6) Quando o tempo acabar, todos são convidados a escrever. Reúnam-se em torno dos espaços de escrita e comecem a escrever. Esperem a sua vez. Encontrem o seu momento e espaço para intervir. Sintam-se à vontade para interromper o fluxo do texto. Se houver uma música a ser cantada, parem e ouçam-na, gravem-na e adicionem-na ao documento final. Se houver lenços de papel ou papel de parede com algo escrito, por exemplo, adicionem também ao documento final. 

    7) O Texto Crítico Ping-Pong é concluído quando todos tiverem contribuído. 

Para ler o Texto Crítico Ping Pong coletivo, multilingue e multidisciplinar PERCURSO DRAMATÚRGICO PARA UMA POSSÍVEL LEITURA criado durante a sessão Construindo respostas críticas: sessão colaborativa para escritores e artistas no Linha de Fuga 2025 , clique aqui (LINK).

Texto de Cláudia Galhós, Pedro Vilela e Xavier de Sousa.
Comissão de performingborders para o projeto Live Art Writers Network x Linha de Fuga 2025. Curadoria de Xavier de Sousa e Anahí Saraiva Herrera.

Biografias:

Cláudia Galhós: Jornalista, especialista em artes performativas e escritora. Escreve sobre artes performativas em geral e dança em particular para jornais desde 1994, em publicações como BLITZ, O Independente, Público, Jornal de Letras, NetParque (portal de cultura do Parque das Nações), Diário Económico, Dance Europe, Mouvement, “Festival Bytes” (foi colunista do blogue da European Festivals Assocition, EFA, 2012/2013), Visão, entre outros. Escreve sobre artes performativas para o semanário Expresso desde 2005. Fez documentação de seminários, festivais e programas de experimentação e residência artística, como o Colina – Colaboration In Arts, de Rui Horta (que aconteceu no Convento da Saudação, O Espaço do Tempo, em 2003 e 2004), TryAngle – Performing Arts Research Laboratories (2012, projeto europeu liderado por O Espaço do Tempo, de Rui Horta), MOV-S (espaço de intercâmbio internacional de dança e das artes do movimento espanhol, com caráter itinerante, em Barcelona, 2007, Galiza, 2009, e Madrid, 2011), Festival Citemor – Festival Internacional de Teatro de Montemor-o-Velho, BoCA – Bienal of Contemporary Arts, a título de exemplo… Foi, entre 2005 e 2006, observadora/consultora da rede Íris (rede de programadores de Itália, França, Espanha e Portugal). Na área da cultura em geral e dança em particular, publicou o livro «Corpo de Cordas – 10 anos de Companhia Paulo Ribeiro» (Assírio & Alvim, 2006); o ensaio biográfico «Pina Bausch – Sentir Mais» (Don Quixote, 2010), “There is nothing that is beyond our imagination” (2015, no âmbito da rede europeia “Imagine 2020 – Art and Climate Change”, que reúne 10 teatros europeus, liderada pelo Kaaitheater, em Bruxelas), “15 anos do Espaço do Tempo” (2016, Centro Coreográfico de Montemor-o-Novo, de Rui Horta); “TryAngle – Performing Arts Research Laboratories” (2013); “Colher para Semear – 25 anos de GDA e 10 anos de Fundação GDA (edição Fundação GDA, 2021).

Pedro Vilela: artista-curador-investigador. Doutorando em Educação Artística pela Faculdade de Belas Artes do Porto, desenvolve a TREMA!, associação que conecta artisticamente Brasil e Portugal e colabora com diferentes estruturas da cidade do Porto. Tem interesse central na cena afro-latino-americana, refletindo temas como decolonialidade e dispositivos de racialidade. É ainda o primeiro latino-americano a ganhar a Bolsa Magaly Muguercia, promovida pelo Programa Iberescena.

Xavier de Sousa: performance maker, editor e curador da plataforma de investigação de performance digital, performingborders. A sua prática é na sua essência multidisciplinar, explorando relações entre a identidade pessoal e a comunitária, o espaço digital como ponto de conexão entre indivíduos, arte e sistemas sócio-políticos. 

Recentemente tem-se dedicado ao desenvolvimento do projecto Live Art Writers Network, que visa desenvolver novas linguagens e métodos de criação de escrita crítica e reflexiva multidimensional, entrelaçando práticas de performance, edição e publicação híbrida. O projeto, na sua essência colectivo e de acompanhamento de artes performativas, cria laços de relação e proximidade entre participantes, coprodução e publicação de comissões de escrita experimental, crítica e reflexiva em diálogo com a performance e live art.

Performances incluem Encruzilhada (Cultura em Expansão, 2024), What Becomes… (METAL, 2024), Slow Cooking (Theatre in the Mill, 2024), Pós- (Teatro do Bairro Alto, 2021), REGNANT (HOME, 2021) POST (Battersea Arts Centre, 2017-2021 tour internacional) e Almost Xav (Southbank Centre, 2015). Formou-se no mestrado de Theatre & Performance, Queen Mary University e colaborou com Dori Nigro, Aura, Tino Sehgal, Rosana Cade, Tim Etchells, Fado Bicha e Puta da Silva, apresentando espetáculos com Teatro do Bairro Alto, Festival Citemor, National Theatre London, Barbican (RU), Onassis Culture Centre (Greece),  ITT Gandinagar (India), entre outros.  Website: www.xavierdesousa.co.uk  |  Instagram: @xavinisms

Anahí Saravia Herrera: (she/her) works at the intersection of community organizing, DIY publishing, and cultural work. She is thinking about how creative spaces can hold political questions and how we can build political alliances through cultural work. She is the current Civic Fellow at Cubitt Gallery, cares for performingborders and is incubating a community-led feminist press: Slow + Dirty, based at House of Annetta. Anahi is physically based in London, and thinks/ feels from the diaspora, she was born in La Paz, Bolivia.

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