Esta obra, da autoria de Ed Freitas, foi comissionada para o projecto Live Art Writers Network x Linha de Fuga Festival 2025. É publicado em conjunto com Borboletário de Vibrações – Um texto-têxtil-polinizador para uma crítica pelo corpo, estando ambas as obras em diálogo uma com a outra. Para mais informações sobre o programa, o festival e todas as comissões de performingborders em resposta ao festival, visite a página do projecto através deste LINK.

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Fui convidado para acompanhar as reuniões de trabalho (conversas, laboratórios, oficinas) e os espetáculos no âmbito do Festival de Dança e de
Performance, intitulado Linha de Fuga/2025, transcorrido na Cidade de Coimbra (Portugal);

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A natureza do convite estende-se pelo meu fazer de crítica experimental em artes do corpo e da cena, particularmente no lastro de um desafio que me foi proposto no performingborders, pela ocasião do Festival Internacional de Teatro CITEMOR, realizado também em 2025;

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Os trabalhos que foram selecionados pelo Festival Linha de Fuga respondem, de modos plurais, à convocação temática proposta sobre a “Performatividade da Amizade”, na perspectiva que o Festival empreste-se como laboratório de criação,
de intercâmbio, de formação e de reflexão
partilhada;

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O meu rito pessoal de imersão cumpriu seu arco de 1 (um) mês empenhado em situar meu corpo de artista-crítico-público em posição de recepção e de atravessamento, visando constituir um modo alterado de presença reflexiva;

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Do ponto de vista estritamente metodológico, sem aquela presença almejada que, em mim, me orienta na capacidade qualquer de elaboração de sentidos sobre a arte, mais uma vez estou assumindo como necessária a interface dos espetáculos agendados na programação do Festival junto à minha temporalidade existencial e suas respectivas derivas de afetação, suas trajetórias de expressão e comunicação a partir do que convocam em minha história de vida e de criação;

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Tão logo quanto, tão longo e de imediato quando me coloquei nessa posição atencional de experiência e de presença relacional, nessa posição de abertura e de sensibilidade reverberante com os processos artísticos compartilhados, observei, em mim, uma indagação de origem hesitosa sobre a relação conceitual entre os temas da “amizade” e da “performatividade”, reconhecendo e assumindo, da minha parte, que os tratados já clássicos da philia ou da amizade em muito antecedem a nossa herança conceitual recentíssima, a respeito do campo artístico dos happenings e da performance artística, no bojo da arte contemporânea;

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Não sem razão, portanto, exigi de mim mesmo uma aproximação tácita, a nível da minha própria corporeidade e sua temporalidade, no sentido de organizar duas grandezas conceituais assimétricas, quais sejam, deslocar a amizade de seu enunciado ontológico-existencial para localiza-la como experiência de uma poética sustentada nos princípios do contemporâneo da arte, segundo um cânone ocidental das artes;

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Meu caminho de problematização daqueles conceitos seguiu os gestos que produzem trama, assim, quando me apercebi, estava lançado na paisagem do crochet e da minha agência de crocheteiro, eu próprio experimentando outro suporte de vocabulário para elaboração dos estímulos que se me apresentavam, através dos materiais, da tridimensionalidade, da qualidade sensível-relacional do volume, da implicação do toque etc;

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E foi assim, encaminhando meu corpo em estado de porosidade no ambiente do Festival que, em ritmos pessoais, soube de mim mesmo a cozer, a costurar estruturas no formato de borboletas, as “belezinhas” (“belbellita”, do vocábulo latino bellus). A limitação externa do tempo em que me encontrei em relação junto aos processos/trabalhos permitiu-me bordejar (construir) 21 (vinte e uma) daquelas estruturas. Não por acaso, no mesmo horizonte civilizatório grego que elaborou sobre a urgência da philia/amizade, também ali, psiké (a psiquê, o aparelho psíquico) sugeria indiferenciadamente alma e borboleta, ou seja, a alma como borboleta;

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Pertinente à síntese da minha trama-borbolejante, de figuração espacial (volumétrica), sinestésica, visual, poética etc, decidi que, enquanto agentes polinizadores (dispersores, multiplicadores) sobre a paisagem, aquelas estruturas bordadas das borboletas transportariam a urgência do néctar da doçura, de flor em flor, tão essencial quanto evidência de saúde do ecossistema, ao lado de abelhas, besouros, beija-flores, morcegos etc;

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Para definir quais os tipos de variação no néctar da doçura em trânsito de urgência necessária pelo mundo, de cada processo/trabalho que meu corpo esteve inserido, coletei enunciados-evocativos, percebidos em sua biodiversidade de coloridos muito (!) vibrantes (flores) e potencial aderível de
pólen, como aposta de transferência e fertilização alhures;

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Listei mais de trinta frases, entre sensações e conceitos que os processos/trabalhos transbordaram sobre meu corpo durante minha visita relacional naqueles ambientes temáticos, de modo que, para cada uma das 21 (vinte e uma) borboletas, aderi essas pequenas fitas/bandeirolas
de urgências viajantes-flutuantes;

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Meu foco de relevância não foram os temas-geradores como inventário numérico, nem mesmo a assertividade no vôo ou capacidade produtivista das borboletas que surgiram. Antes, por uma delicadeza colateral, e assumindo, para eu mesmo, o princípio investigativo da amizade como experiência de re/conhecimento em artes, lancei minhas borboletas como emissárias, convidantes de diálogos com terceiros que não estiveram na oportunidade de compartilhamento físico dos espetáculos, como foi o meu caso. Pensei nos meus amigos, em pessoas com quem desenvolvi, em diferentes momentos, por diferentes pretextos, relações de afeto e de vinculação, de intimidade e de confiança. De modo a substancializar essa fase da criação, converti as respectivas borboletas em alfinetes de roupa e cabeça, enquanto gesto emprestado do que pousa e faz também companhia, na pele de um terceiro;

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Eu não sabia das eventuais disponibilidades, nem dos seus interesses atuais, daqueles meus amigos solicitados em meu convite, no sentido de responder e de vir a concordar para um evento de partilha sensível, a partir do convite polinizador das minhas borboletas e seus temas evocativos-geradores. No meu pensamento criativo, tratava-se de um experimento relacional complexo, qual seja, o de verificar em que medida as urgências sensíveis compartilhadas nos espetáculos poderiam migrar e fecundar outros discursos mais distantes, utilizando-se (me), outrossim, do pretexto de um ambiente de segurança afetiva como a amizade. Dessa feita, imaginei acaso seria capaz de verificar, através de uma experiência propositiva de compartilhamento sensível, reflexivo e afetivo, o potencial e possível efeito polinizador daqueles temas, enquanto lastro de uma ação relacional performativa dentro do contexto da amizade;

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Embora sensível, singelo, delicado, amoroso, o convite não foi menos complexo e desafiador, inclusive do ponto de vista poético, vez que, diferente das abelhas que vivem em colmeias, as borboletas habitam outras formas de organização e de relação umas com as outras. Pensei não apenas nas existências singulares dos meus amigos, garantidamente desconhecidos entre si, uns para os outros, ademais e, não raro, pessoas muito reservadas, às vezes tímidas, também como eu, sujeitos de hesitações e de poucos amigos, portanto, não exatamente propensos às dinâmicas de exposições públicas das suas vidas e
escolhas pessoais;

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Nesse processo em que, poeticamente, enfrento meus fantasmas de solidão, de finitude e da minha própria existência borbo-diletante, decidi tensionar a condição do estar sozinho, a partir da cabeça da múmia enquanto agente intermediário e aglutinador, qual seja, a cabeça cochetada da múmia enquanto mediador e viveiro coletivo, enquanto mediador e borboletário do encontro/paragem dessas borboletas em seus
respectivos vôos singulares;

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Mesmo me reconhecendo socialmente exaurido, investi, apostei na cabeça-múmia-borboletário, tanto como suporte-máscara dessa aproximação arriscadíssima eu-outro, intimidade-alteridade, afeto-mundo, resguardado o fato abonatório de que foram convites dirigidos às pessoas com quem já me sabia parte de uma relação de confiança. A constatação de laço de afeto anterior, todavia, por um lado me conferia vínculo prévio e, exatamente por isso, me impunha um tônus de responsabilidade afetiva sobre o contato, sobre o retomar, sobre as emoções implicadas, sobre o passado, sobre o ouvir e, depois, processar a densidade afetiva dos conteúdos que se carreiam nas amizades;

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Eu saí mais exausto, na verdade, inundado de afetos, encruzilhadas dos nossos mundos e passados. Para todos os meus amigos, porém, e a despeito das mesmas sensações de implicação afetiva mútua, todos declararam o quão importante, significativo, pertinente e emocionado foram nossos diálogos. Sim, deflagrados pelos evocativos de cada borboleta-convite, sim, conversas que emergem de paisagens imersas em nosso comum social e sensível, porém, traduzidos no vocabulário afetivo particular daquelas relações e suas possibilidades de aprofundamento da intimidade;

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Em vez de sozinhas, para cada borboleta que foi enviada, não apenas se reconfigurou o ecossistema da minha
cabeça-múmia mas, talvez inesperado para mim, descubro, desvelo, deparo-me com um alcance outro do Festival enquanto exposição dos espetáculos no imediato
do seu público que, por sua vez, em mim, também se multiplica em uma trama de outros alcances afetivos, multiplicado, sim, aqueles temas de urgências sobre o presente comum que alcançamos pelos nossos corpos, todavia facilitados com uma disponibilidade relacional que apenas a posição desarmada, amorosa da amizade
seria capaz de sustentar, de suportar;

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Descobri, então, que a performance não gesta a amizade ou meus amigos, embora, ladeado com o afeto de empatia, cumplicidade, partilha, intimidade dos meus amigos, a performance, sim, recria-se, dilata-se, ela própria, performance do campo da amizade onde seus objetivos reflexivos, presenciais, enunciativos promovem derivas inesperadas, porquanto mais robustas como efeitos de verdade na organização de comportamentos;
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Para mim, que venho de uma trajetória investigativa dos últimos seis anos, em torno das questões do exílio, da partida, da solidão, do abandono, do rompimento, eu que já mergulhei nos temas da família, da mãe, do irmão, da avó, dos antepassados e dos ancestrais, agora, talvez, me veja capaz de tocar, em mim, de tramar, de costurar em mim, o vôo alargado do afeto, do aliado, do amigo, do bem-querer que tem permissão de orbitar, de navegar minha cabeça pelo seu fora, não menos vibrante e colorido quanto o seu dentro, cores, cores, cores, polinizadores de cores.

Ed.
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Comissão de performingborders e Linha de Fuga 2025, com curadoria e acompanhamento de Xavier de Sousa.
Ed Freitas é artista visual e transdisciplinar nascido no Nordeste do Brasil. Seu trabalho articula performance, instalação, escultura e artes têxteis para investigar a Presença-Instalativa, conceito que desenvolve em seu doutoramento em Arte Contemporânea na Universidade de Coimbra. Usando fios, mantos e objetos sensoriais como dispositivos de memória e liturgia, constrói poéticas do corpo como arquivo vivo da ancestralidade. Vencedor do World Cultural Council Award (2022), Freitas apresenta obras que tensionam o sensível e o político, com atuação internacional em festivais, residências e exposições no Brasil, Portugal, França, Romênia, Alemanha e EUA. Integra sua prática com curadoria, docência e pensamento crítico no Ateliar Nuno Fonseca (Coimbra).
Instagram: @ed_freitas